Eu podia só jogar essa bomba e esperar alguma (ou nenhuma) resposta, mas quero dar um pouco mais de contexto do porque essa pergunta anda rondando a minha cabeça (talvez as nossas). Na semana passada, por exemplo, tivemos o Dia Internacional das Mulheres e das Meninas na Ciência (11 de fevereiro, instituído pela ONU em 2015) e tive que ir até a página dez da busca do Google para encontrar uma matéria autoral sobre o tema. Na Forbes Brasil eles fizeram a clássica “10 cientistas que você precisa conhecer” (sempre uma boa pedida, mas que não vai à fundo no tema) enquanto UOL, G1 e Valor publicaram matérias de agências, de parceiros ou comunicados de imprensa. Ou seja, não colocaram seus próprios recursos para produzir algo.
Verdade seja dita, o texto da Fernanda Staniscuaski, do The Conversation Brasil, publicado pelo G1, traz à luz alguns dos tópicos que deveríamos estar discutindo nesse dia, como o “efeito tesoura” e os custos invisíveis da carreira acadêmica para mulheres – mas é mais um ensaio (muito bom, por sinal), do que uma reportagem. Já o Branded Content da PressWorks no Valor traz um dado interessante e assustador: “segundo levantamento da Associação Mulher, Ciência e Reprodução Humana do Brasil (AMCR), apenas 5% dos cargos de liderança acadêmica no país são ocupados por mulheres, que também permanecem minoria em publicações de alto impacto, autoria principal e concessões de bolsas e prêmios”.
Ou seja, assunto tem, o que falta, então?
Quem nos segue há mais tempo sabe que o Ada nasceu de um desejo de trazer uma perspectiva feminina para a tecnologia, essa área tradicionalmente tão masculina e masculinizada. Existimos e resistimos por algum tempo como um pequeno veículo de mídia, mas decisões profissionais e pessoais nos fizeram parar com o Ada por volta de 2019. Importante dizer que o contexto era outro naquele momento: diversidade e inclusão eram temas em alta, não apenas no meio acadêmico, mas também no mundo corporativo. Eu mesma vi de perto programas voltados ao desenvolvimento de lideranças femininas, vagas afirmativas para mulheres, mulheres negras e pessoas com deficiência, e muitos relatórios que mostravam maior equidade entre homens e mulheres em comparação a tempos passados. O futuro era promissor para o feminino.
Talvez não precisasse dizer, mas o contexto hoje é outro e foi esse contexto atual que me fez voltar a pensar no Ada. E se?
Comecei o ano tirando proveito do meu status de esposa de um bolsista de um programa em Stanford, nos Estados Unidos, um dos principais centros de desenvolvimento de novas tecnologias. Mas o mais legal disso tudo foi poder parar, respirar e pensar. Pensar, pensar e pensar. Buscando me reconectar com temas que eu gosto, fui parar na aula de “Gendered Innovations in Science, Medicine, Engineering, and Environment”, na qual descobri que o buraco continua muito mais embaixo, talvez mais abaixo do que quando criamos o Ada, especialmente agora com o advento da IA.
Eu tenho usado bastante AI no meu dia a dia, como quase todo mundo, mas decidi dar um passo a mais e me inscrevi em um workshop chamado “AI-Driven Product Development Workshop", ministrado pela super atenciosa Marily Nika, AI Gen Product no Google. Ao lado de mais de 100 pessoas, várias mulheres, passei o sábado aprendendo a desenvolver um produto baseado em AI, usando as principais ferramentas do mercado e aprumando minhas recém-desenvolvidas habilidades de vibecoding (que é basicamente desenvolver com a ajuda da AI e por meio de prompts). Testei Perplexity, Claude, Google Studio AI, v0.app e, é claro, ChatGPT. Preciso dizer que o resultado foi bastante interessante e que as ferramentas me trouxeram muitos insights de usabilidade e de funcionalidade para o aplicativo que estamos desenvolvendo, eu e o Sérgio, chamado Dojo Mojo.
Não é hoje que vou entrar na discussão de se a IA é ou não uma bolha, ou se você deveria desaparecer por um mês e aprender sobre todas as IA disponíveis, mas vou dizer sim que ela está mudando tudo. E aqui entra uma das minhas perguntas: já dominamos suficientemente o conhecimento em tecnologia para não perder esse bonde ou, pior, ser atropelado por ele? Sinceramente, não sei e por isso estou aqui perguntando para nossa fiel base de assinantes, agora no Substack, se é hora de voltar.
Por isso, meu pedido são, na verdade, três: o primeiro e mais simples deles é responder este e-mail. Pode ser um simples sim, queremos o Ada de volta (ou não); segundo é me ajudar com uma uma breve pesquisa (só 5 perguntas!) no Google Forms sobre temas que atravessam o campo do feminino e da tecnologia e que podem ser interessantes de abordar. Três, compartilhe essa edição com outras pessoas que possam se interessar pelo tema e responder à pesquisa. Eu sempre acreditei que o jornalismo é uma via de mão dupla, logo, o Ada não vai voltar a existir se não tiver com quem dialogar. Vocês ainda estão aí?
Três links que encontrei por aí e outros dois que podem te interessar:
No episódio O julgamento das big techs e a responsabilidade do algoritmo do podcast O Assunto, Natuza Nery entrevista a especialista em Direito da Tecnologia Carolina Rossini sobre os julgamentos que estão rolando contra as redes sociais nos Estados Unidos. Nesta semana, Meta, dona do Instagram, e Alphabet, controladora do YouTube, estão enfrentando um julgamento em que são acusadas de, conscientemente, programar os algoritmos de suas plataformas para viciar os usuários, principalmente crianças e adolescentes.
Falando em mulheres na ciência, temos que falar de Tatiana Coelho de Sampaio, a pesquisadora brasileira responsável por liderar os estudos com a polilaminina, substância que se mostrou capaz de reverter lesões medulares em humanos.
O site do Prêmio Nobel tem uma lista com 19 mulheres que ganharam o reconhecimento nos últimos anos e que dá um quentinho no coração.
Ficou curiosa com o aplicativo que estamos desenvolvendo? Leia na newsletter do Sérgio mais sobre essa ideia e teste se quiser: Quando Barbie e Ken dividem as tarefas de casa.
Por fim, o filme que me despertou a vontade de voltar com o Ada: Picture a Scientist.



Aeeeee, bem-vinda de volta! Partiu workshop de vibe coding da Ada!
Eu AMEI que a Ada vai voltar!!!! Quero saber mais do curso de IA pra desenvolvimento de produto (comecei a escrever uma metodologia sobre isso, mas fui atropelada pelo CLT, fico feliz e triste de o assunto estar rolando real/oficial). Sobre o tema mulheres na ciência, também acho que é interessante entender quanto da massa de cientistas mulheres está nas ciências humanas (imagino que a maioria), nas exatas e nas biológicas (dá pra quebrar melhor isso tb), porque acho que essa divisão também mostra como algumas ciências são tratadas como menos científicas e - talvez por isso - mais "deixadas" para as mulheres. Pega a educação, por exemplo. Ou as ciências sociais aplicadas... enfim, grande pauta.